Sexta-feira, 10 de Julho de 2009

O Sonho, o Amor de uma Heroína (Parte I)


Entretanto, no calmo Palácio das Reuniões, reinava um silêncio divino apenas perturbado pelo som de uma harpa, a Sereia da Meia Noite assegurava-se com o seu mágico instrumento que todos, quer alunos, políticos, e professores, tivessem um sono descansado. Por cima do disco lunar prateado, no topo do largo edifício de três andares, estava empoleirada uma linda criatura com cauda de peixe verde-clara que brilhava juntamente com a lua clara e de aspecto relaxante. O seu cabelo louro solto esvoaçava e despenteava-se com facilidade, mas com a ajuda de um gentil e pequeno espírito do ar, um minúsculo serezinho de cinco centímetros de altura este logo se tornava brilhante e atraente. Aí, com os seus dedos delicados, dedilhava suavemente as cordas, esboçando um sorriso, demonstrando que ali apenas reinava o equilíbrio e a paz interior. Aquilo é um lugar de Magia Branca. Ódio, guerra e vingança são palavras que não se ouvem frequentemente por aquelas parades sagradas que cujos fortes alicerces tinham sido fundados há mais de trinta e cinco mil anos.
Todo o lindo palácio em forma de círculo, formado por cristais raros encontrados nas zonas mais remotas da Atlântida já estava a dormir desde as nove e meia, e nenhum dos seus melhores alunos tinha ido para a “bárbara celebração do Mal”, como lhe chamara o grande patrono do Palácio das Reuniões, o famoso e sábio homem que governa neste castelo dourado, se atrevera a ir para a festa.
Havia, porém uma menina que passava a noite a surfar na net através do seu computador, acomodada num amplo quarto, iluminado com a fraca luz de uma pequena lâmpada. O seu cabelo preto abundante e despenteado atrapalhava a sua missão de encontrar alguma coisa de útil na Internet. Enquanto isso, tentava manter-se acordada ao beber qual alma penada sem qualquer vida bebendo uma garrafa de Coca-Cola.
Os seus olhos azuis cansados mostravam muito bem quem era: quem mais senão a querida e distraída Sara a procurar o seu verdadeiro amor.
Pobrezinha, tinha descobrido que aquele bruxo mais jovem do grupo de rufias gigantes não tinha ido à festa e fora-se embora mais cedo.
Aquela pequena princesa dá dó. Com a minha visão, consegui ver mais ou menos o que estava ela a fazer.
Não haveria ninguém suficiente bom ou gentil para ela…? É óbvio, num país infestado de malvados, não é de se admirar, mas a coitadinha já sofrera demasiado. já estava habituado a tudo aquilo.
As lágrimas passavam-lhe futilmente pela cara, e, limpando-as inocentemente qual pomba branca sincera e tímida; escondeu a cabeça sobre o cabelo preto lindo, pois não queria que mais ninguém a visse, a ela e à sua desgraça.
Será que nunca mais ia ter um homem certo, um príncipe encantado…?!
Ela é boa demais para uma terra amaldiçoada e má como esta, não há nenhum homem que se possa comparar com ela. Nenhum, e era isso mesmo o que ela sentia.
Por vezes, até penso se ela não é um anjo que perdeu as asas ao caír por força do Diabo, invejoso da beleza pura da princesa da luz.
Seria aquela uma filha de Deus, vinda do Céu, para melhorar aquela terra.
Olha que não estou a cometer blasfémia, e a todos ela dá pena, se calhar só a Serpente de Fogo, o Tsesustan e o meu Padrasto não têm pena dela. Só de pensar que aquela frágil flor-de-estufa está sozinha e perdida no mundo. Perdoa-me a expressão, mas é isso mesmo que ela é!
Ao leres este livro, reparaste logo que Sara é uma das personagens mais sentimentais da minha história real, e é verdade, o problema é que há poucas pessoas hoje em dia que ligam ao interior, mas sim ao exterior. É por isso que muitas vezes, ela é julgada pelo seu exterior, e não pelo interior. Arranja sarilhos só por ser bonita e muitas das fadas que ainda existem também apanham por isso. Ela estava farta de ser tratada como uma obra-prima falsa, uma pintura fantástica perdida de um antigo mestre larápio e aldrabão que todos os homens quisessem posssuir. Para ela, já bastava aquele sofrimento por que estava a passar, e passou durante longos minutos a compor músicas extremamente belas para os Deuses.

Ela é uma Fada da Luz, uma Kinnary, uma fada com asas de cisne e pernas tão bonitas e frágeis quanto as de uma corça jovem e pequenita, cuja principal função é servir os Deuses. Elas e os Kinnara - os fadas masculinos - são os principais criados e servos dos Deuses e eram muito influentes em tempos idos, aquando a Serpente de Fogo ainda não estava no poder. Agora, por causa da sua beleza, as Kinnary e os Kinnara (tal como as outras espécies de Fadas) foram forçados a exilarem-se das cidades ou de outros locais mais populosos, para evitarem serem capturados pela SPV, a polícia secreta da Serpente de Fogo. Sabes como aquela víbora é quando outra mulher ainda mais bonita "ofusca a sua beleza". Fica logo invejosa. Mas a Sara também não gosta nada de viver fugida dos capangas daquela bruxa. O pior é que ela não pode fazer nada.
Actualmente, com um pouco de paz e de alegria espiritual, a antiga "amiga" dos Von Tifon e embaixadora diplomática dos Deuses no estrangeiro, apesar de já ter 82 anos, continuava tão bonita como se tivesse vinte aninhos. É uma fada pobre - com a maior parte dos seus bens, tanto monetários como títulos honrosos, foram consficados no "9 de Julho de 1978", quando as Fadas passaram a ser consideradas "impuras" e indignas de viver nos "mesmos espaços" que os superiores "bruxos e feiticeiros". No entanto (embora ela nunca quisesse e já tentara fugir dali para viver com o seu próprio esforço como cantora de cabaret ou de algum club duvidoso em Cyborg Town), o Palácio das Reuniões concedeu-lhe refúgio, comida e dormida, por ser, ainda considerada, por muitos deuses incorruptíveis, uma «...uma heroína que sempre fez o seu melhor pelo seu país...» Sim, ela enfrentou muitas vezes os Nazis, e teve de enfrentar, sozinha, algumas batalhas, completamente sozinha, mesmo depois da guerra...!

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Uma da manhã – Hora das Bruxas, Bruxos e Demónios

«...Coisas estranhas acontecem no reino mais escuro das cinco classes definidas por Sua Alteza, a Rainha de Fogo...!»

Citação do Capitão-Mor Eddward Goldtheeth

Nem a Lua nem as estrelas habitavam o Vale da Cabeça da Morte, apenas existia o céu negro envolto em relâmpagos que rasgavam de vez em quando a abóbada celeste e cá em baixo no topo de uma pedra podia-se vislumbrar os picos cobertos de neve dos Alpes das Sereias que ficavam exactamente a três mil metros de altitude.
O musgo fosforescente e as luzes trémulas dos pirilampos – exceptuando os trovões, ressoando ao longe – eram as únicas fontes de luz por aqueles lados, e por mais bizarro que parecesse, não se avistava árvore alguma nem a único raio de cinquenta km.
Arbustos rasteiros e silvas ameaçadoras qual grupo de venenosos escorpiões a rodear o lago era a única flora que existia naquele lugar tão sinistro e funesto. No topo de um grande rochedo em forma triangular, circundado pelo lago de trinta metros diâmetro, conseguia-se ver-se uma inscrição antiga, originária da civilização da , pelo menos de há dez mil anos atrás, uma suástica com lados em espiral, com uma frase em atlante-arcaico que dizia:
"....Àquele que bater no meu palácio, desejo felicidades e boa sorte, pois será com dificuldade que regressará com vida. Os vivos e os que não forem criminosos jamais deverão trespassar esta porta, portanto, respirai bem fundo, nobre e valente feiticeiro, estais prestes a entrar no Reino dos Demónios...!"
Aquelas palavras soaram constantemente nos meus assustados ouvidos até que compreendi por fim que aquela viagem não seria tomada de ânimo leve. Porém como já disse inúmeras vezes, a coragem é coisa que não me falta. Lembrei-me do significado da palavra suástica em sânscrito “felicidade”. Ou talvez “Mal Eterno”?
Bom, estava sozinha e a inventar trocadilhos?! Seria a atmosfera tão triste e fria daquele sítio que me despertava o meu cruel sentido de humor....?
Ri-me dos meus próprios pensamentos, pondo o vestido vermelho que Serpente de Fogo me dera especialmente para aquela ocasião, e respirei bem fundo – o mais fundo que é possível a dois mil metros acima do nível do mar – e esboçando um sorriso que não passou acima de cinco segundos pelos lábios pintados de prata que brilhavam naquela escuridão. Em tempos idos, aquela rocha no meio da água fora o primeiro degrau na entrada para o magnífico e luxuoso castelo do Rei dos Bruxos, o primeiro e verdadeiro Assassino do Amor, Rwebertan Samiel Di Euncätzio. Mas agora, este castelo dum número de quartos infinitos é usado como prisão eterna para todos aqueles que desrespeitassem as leis da magia, e é definido com terror no coração como a ilha da Fronteira, a morada de todos os demónios e criaturas diabólicas que, outrora, há milhares de anos, governavam a terra.
Nos anos do venerável Kzenah Malagheti, este lugar tem sempre sido usado como sua morada, e espanto-me porque este castelo tem uma arquitectura e aspecto muito semelhante com a do famoso e grandioso Castelo de Praga. Obviamente, há mais de cinco mil anos que fora demolido por Neptuno, e o próprio Assassino do Amor fora sepultado naquele grande lago. Acredita-se que é para lá que os bruxos malvados são levados quase no fim da sua vida ou quando estão quase a ser mortos por alguém. Já tinha estado em pensões e castelos escoceses menos deprimentes que aquilo. O Pedro já ouviu falar do próprio tio que o Castelo Negro é aonde mil pobres almas de Fadas foram chacinadas, e aonde os demónios preferem atormentar os mortais. Os habitantes da vila próxima de Losjafhden dizem que ainda se conseguem ouvir os passos melancólicos e sinistros do espectro do Assassino do Amor a subir as escadas do terrivel esconderijo! Superstições parvas, é claro...Que eu saiba, nunca acreditei em fantasmas....Quer dizer, não gosto deles!...
Lá estava eu, sentada naquela pedra, naquela insignificante pedra, observando a paisagem morta e seca, e, por uns meros minutos, pensei em desistir e voltar pelo caminho que aquela bruxa me tinha indicado. Engoli em seco, e senti que a minha língua bifurcada estava ressequida, precisava imediatamente de água com outro elemento. Definitivamente isto é um vale muito acolhedor e agradável, isto é para um nazi implacável, ou para o próprio Rei dos Bruxos, é claro. Não me admirava nada de ainda ver o Conde Drácula, ou talvez mesmo o Frankenstein lá nesse tal castelo.
Sabia que deveria manter a calma, senão, não chegaria a lado nenhum, e aquela demanda seria em vão. Não! Sete meses a ser atormentada em sonhos por um cruel padrasto não tinham sido inúteis. O dever e o meu coração diziam que devia encontrá-lo, onde quer que ele estivesse.
Iria avançar, fosse qual fosse o preço de ver o meu padrasto...! Sou uma mulher ou uma galinha? Pois, era uma bruxa, mas mesmo assim, tinha valentia.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

uma noite em Losjafhden (última parte)


O estafado Tezcatlipoca abriu as portas de vidro super fortes e impenetráveis qual guerreiro acabado de chegar de uma longa e dura batalha, com um sorriso na cara, resignado e guardando de uma forma desleixada o seu guarda-chuva perto do espanta-espíritos. Pensava que os problemas tinham acabado. Como estava enganado!
Primeiro, reparou que as luzes estavam acesas e o balcão estava uma lixeira; segundo, de súbito, uma grande bola de pêlo castanha e branca saltou-lhe em cima qual torpedo laranja, com a cauda a abanar e a ladrar vigorosamente.
O pobre cyborg ficou com a cara toda molhada daquele líquido viscoso, e tentou limpar-se sem êxito, ao ver que o cão estava determinado em deixá-lo em pior estado do que tinha quando entrou em casa.
Levantou-se de rompante, e deu algumas festas ao fiel animal de grande porte, com um sorriso de quem perdoa facilmente.
- Pronto, Bravo! Eu também estou feliz por te ver. – Comentou entre dentes. – Sabes onde está o Pedro?
O cómico S. Bernardo começou a correr, balançando-se e subindo as escadas de forma bastante ridícula, sempre a babar-se.
Pedro contou-me nas aulas que Bravo chegara às suas vidas desde que o meu amigo especial tinha dezasseis anos, e nessa altura, o cãozinho era um fofo e não pesava quase nada, mas agora, parecia-se mais com um verdadeiro bucha anafado, e às vezes é um pouco brincalhão. «Qualquer dia, temos de comprar um elevador para a pobre criatura, caso contrário, ainda vai cair nas escadas!» Comenta com os olhos revirados e de forma sarcástica o tio do Pedro.
Adiante, ele seguiu com dificuldade o seu animal doméstico preferido, até ao quarto da porta verde-clara, donde saía música hard-rock a altos berros.
Muito alarmado e com os olhos arregalados que nem dois tomates podres, foi com as sobrancelhas muito carregadas e com um olhar austero que o tio do meu amigo entrou muito irritado no seu quarto, precipitando-se como um canhão para leitor de CD’s.
Para o cansado Tezcatlipoca, já bastava os Bruxos com a nossa «...idiota...» e «...maluca...» mania do Dia das Magias Negras, agora ter de aguentar com as manias madrugadoras do seu único sobrinho.
Olhando para o Pedro, o velho cyborg muito zangado, carregou violentamente no botão para desligar a “música infernal”.
Acabando de fazer isto, baixou-se para o rapaz moreno, alto e de olhos castanhos pequenos que não parava de tocar a guitarra vermelha-escura com grande êxtase e retirou-a de uma forma bruta.
- Por favor! – Exclamou ele em voz alta, mas logo mudou para um tom mais baixo para que não perturbasse a vizinhança. – Enquanto viveres nesta casa, homenzinho, o silêncio à madrugada é de ouro!
Obviamente que o jovem cyborg objectou a opinião do seu encarregado da educação, nós, adolescentes, costumamos ter um espírito livre, e não gostamos quando os “cotas” da nossa família venham “melgar” para o nosso local favorito, ou seja o nosso quarto, é por isso que Pedro também ficou um pouco aborrecido pelo tio vier irromper pelo seu local e ter desligado a música sem ter pedido autorização.
Ele bateu com a mão na perna direita metálica, fazendo uma cara de amuado.
- Oh, mano! – Disse chateado. – Só estava a curtir umas músicas, tio....Também já não se pode ter uns minutos de descanso, é?
Mas o stôr Tezcatlipoca não quis saber nem dos “mano” nem dos “curtir”, e apontou com rigidez para o beliche vermelho desportivo da Ferrari.
- P’ra cama, homenzinho! – Mandou friamente. – Imediatamente. E não te esqueças de lavar os dentes…Queres ficar sem dentes?
Ao pegar na sua escova e no pijama, o rapaz olhou o seu tio um pouco envergonhado.
- Tio, eu já não sou nenhum puto de nove anos! – Respondeu submisso.
Com as mãos nas ancas, Tezcatlipoca arranjou facilmente argumento para aquele comentário insolente e disse:
- Estás com muita sorte por eu não ter-te tirado a guitarra até teres dezoito anos, homenzinho, porque era isso mesmo que eu queria fazer, se não estivesse afogado com tanto trabalho pelas orelhas!
Acabando de vestir o pijama, o insubordinado rapaz, ainda comentou, meio, deprimido, sem saber o que fazer senão obedecer às ordens do seu tio:
- O Dark Sword nunca me teria levado para a cama. Até aposto que o Euncätzio é mais porreiro que o tio.
Mal disse isto, fechou a porta na cara de Tezcatlipoca com desprezo e deitou a língua de fora, sem nenhuma consideração pelo velho e experiente cyborg!
Porém, o tio não ficou zangado, pelo contrário, suspirou com grandes remorsos a pesar-lhe na cabeça, e, olhou lentamente uma última vez para o poster, abanando a cabeça desapontado, nesse momento, houve qualquer coisa no seu olho que soltou-se.
- Se é isso que pensas de mim, meu rapaz, então é porque não conheces de todo a tua família! – Indagou secamente.
Assim triste, foi para o seu quarto trabalhar, sem saber que o seu sobrinho não tinha nenhum afecto pelo pobre coitado.
Na trágica verdade, o Pedro tem andado tão estranho, tal como a maior parte das pessoas simpáticas que se encontram neste mar de corrupção. Estava preocupado comigo, e mesmo que estivesse a usar o anel, o dele continuava a brilhar numa cor completamente vermelha de sangue! Assustado com as histórias que eu lhe contara acerca do meu Padrasto e sobre as minhas intenções de ir visitá-lo ao Castelo Negro, de potenciais perigos.

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Uma Noite em Losjafhden (Parte I)

Fazer a marmelada com um cyborg é como dormir com uma bomba-relógio, mas Sua Senhoria também não é nenhuma santa. Afinal, ela foi a esposa do Assassino do Amor.
Que obsessão a nossa – as Bruxas – de nos apaixonarmos pelos maus: primeiro o Mestre Samiel; depois o Primo Coutinho; o Nälden e o Major Scüller (no meu caso, claro, nunca conheci ou teve uma relação a sério com o primo ou com aquele louco); e, por fim, o Capitão Goldtheeth pela Solaris.
Agora isto! E depois o primo admira-se que a vida está complicada na Atlântida....!
Bom, quanto ao affair da Madame Serpente de Fogo e do Conde James Dark Sword, o melhor é só imaginares, porque aquilo que eles estavam a fazer era mesmo quente, mais arrebatador e volátil que o próprio Inferno!
Afinal, podemos chamar desta noite, uma noite agridoce....Eh, eh, eh...!

A chuva pingava e deslizava qual enorme exército de formigas por entre os telhados humildes de tijolo do pequeno e perpendicular apartamento da mesma cor da tijoleira, de apenas um andar na bonita Inctaluatalidenistados Rue – ou Rua dos Intelectuais com rampa de aço à moderna para subir ao parque privativo nas traseiras, com vista para as varandas do Castelo das Infantas – caindo precisamente em algumas taças os pingos da bênção repetitiva de Deus, e produzindo energia para toda a casa através de uma engenhosa invenção, cuja chave e forma como funciona seria demasiado complicada para explicar num diário para adolescentes – principalmente para duas como nós! O Castelo das Infantas tinha sido construído nos arredores de Cyborg Town, nos anos 70, em honra do milésimo aniversário da ponte cultural da Bellanária com o oriente, e também no pretexto de remodelar as estreitas e sombrias ruas de Losjafhden, os arredores mais a norte de Cyborg Town.
Seja Verão, seja Inverno, aquele é um bairro muito alegre, pois todos se lembravam da colorida pastelaria do nº 7, lote C do Rés-do-Chão. Era a famosa “Nuvem Doce”, como um sinal facilmente identificável: uma tabuleta que tinha pintado um pirolito em forma de uma engraçada nuvem branca com uma cereja vermelhinha no topo. Primeira porta a contar da esquerda. De manhãzinha, no Verão, consegue-se ver o simpático e cómico Dr. Tezcatlipoca, limpando e preparando a pastelaria amarela para os clientes, andando de um lado para o outro, e assobiando de forma jovial enquanto varre o chão.
Em tempo de aulas, a pastelaria só abre às seis da tarde, abrigando os pequenos magos e fadas, estafados depois dum grande dia. Uma coisa muito boa neste sítio é que não há absolutamente demónios ou bruxos alguns. Antigamente, este era um bairro santuário para demónios e miseráveis e cyborgs, ninguém se podia aproximar, Losjafhden diziam estar amaldiçoada desde a altura em que tinham chegado asiáticos para a ilha, há milénios atrás. Contudo, a Serpente de Fogo decretou que, a partir de 1978, não haveriam mais demónios a habitar esta parte de Cyborg Town, tão antiga, tão ancestral….Se olhássemos para a Losjafhden de há quarenta anos atrás, nem a reconheceríamos, da maneira como está diferente!...
O bem e as canções que se tocam ao vivo na rua são demasiado positivas para que alguma magia negra entre. Mas, a meio da noite, ainda por cima com a chuva, no Outono, a pastelaria pode-se parecer com algo um pouco pobre, mas, ao entrarmos, vemos que o ambiente é outro. As lâmpadas amarelas acesas iluminavam as relaxantes paredes douradas, debaixo do balcão de mármore cinzento, estava um enorme cão castanho a dormir tranquilamente, e a ressonar auditivamente, é um S. Bernardo que tem um sono muito leve. Os mesmos músicos tocam uma melodia mais calmante para todos terem uma boa noite de sonho.
Ao lado direito, há umas escadas de madeira que levam até dois quartos: o da direita tem uma porta verde-clara com um poster da Cyborg Town, como figura principal o próprio Euncätzio com um sorriso hipócrita e forçado, mostrando os seus dentes brancos, com uma bengala de uma águia na mão direita a acenar para as maiores atracções da sua cidade e agarrando a Serpente de Fogo pela cintura, esta usando um lindíssimo vestido de gala vermelho, a concorrer para ver qual é o sorriso mais falso daquele poster hediondo. À parte desta coisa horrível, tudo nesta casa indica para uma sensação de bem-estar enorme. A outra porta no cimo das escadas de madeira é a entrada para o quarto de Tezcatlipoca.
Realmente era um sítio agradável para se estar, um pouco pequeno demais para meu gosto, mas agradável. Pelo que tinha ouvido dizer por parte de alguns antigos miseráveis que viviam antes da mudança em 1978, o velho deus de origem azteca tinha renunciado à sua fortuna, ao seu terrifico poder, ao seu palácio e ilha privada, ao seu vergonhoso harém de dois mil e doze donzelas – para um velho deus com mais de cinco mil anos, ele atém tem um grande sucesso com as mulheres, hã; enfim eu não tenho nada a ver com isso, mas acho que isso são tudo patranhas inventadas pelos velhos amigos machistas da pré-história do Palácio das Reuniões – para vir trabalhar naquela vila pacífica, em 1979, para poder ir viver com Susana Linsra. É óbvio que, quando isto se soube na sociedade bellante, foi um autêntico escândalo. Uma fada a viver com um deus, ainda por cima uma fada que estava noiva?!... Primeiro, culparam a mãe do Pedro por estar a desviar o “Príncipe dos Príncipes” por maus caminhos, segundo, a maior parte das deusas ciumentas que planeavam acabar os seus dias de imortalidade com um dos deuses mais invejados do Palácio das Reuniões decidiram abrir um processo para mandar fechar o Nuvem Doce, e é preciso sublinhar que a maior parte das “Senhoras”, num dos dias do julgamento, falaram como se fossem mulheres da raça dos Demónios!
Para os que não sabem – e devem ser muitos – cada classe aqui na Bellanária tem o seu próprio dialecto, digamos…O seu próprio sotaque. É suposto os Deuses bem honrados falarem o Bellante Arcaico, mas aquilo que os deuses ouviram no julgamento não era nada mais do que uma versão aristocrática de um sotaque mexicano misturado com uns quantos palavrões em Bellante Corrente!... (continua)

Quarta-feira, 6 de Maio de 2009

O homem da Espada Negra (Parte II)


Mal viu que o seu novo escravo da mente já ia longe de vista, o anti herói preferido de toda a Atlântida esfregou as mãos de contente, com os seus olhos esmeralda a brilhar de satisfação, os seus lábios rasgados pintados de vermelho expressavam bem como agora estava calmo e como tinha prevenido que pelo menos alguém de quem ele tinha uma certa afeição se magoasse.
«Mais um triunfo para os Cyborgs! Uma morte para evitar muitas outras, isso é que é o verdadeiro objectivo da guerra.» Pensou enquanto punha as luvas no queixo bem comportado. Porém, o seu sorriso matreiro logo desapareceu e bateu com a mão na testa, um pouco preocupado. «Ora que esta! Quase que me esquecia completamente. Há horas que eu devia ter ido deitar o meu sobrinho!
Ele tinha desferido um golpe fantástico sobre a SPV, mas agora faltava apenas uma coisinha que ele tinha em mente.
Algo de especial que ele planeava dar a uma pessoa especial há muito tempo....E notava-se nos seus olhos frios que estava a tramar alguma coisa, mas o quê?
Aqueles olhos vazios eram como uma barreira que não deixava passar nada nem um único sentimento. Seria o ódio o seu único sentimento...?
Sim, havia ódio no seu velho coração, ódio por tantas coisas, principalmente pelo seu eterno rival, o meu Padrasto. «Aquele diabo espera para quê? Ainda gostava de saber porque razão só aquela víbora se atreve a aparecer! Mas é típico daquele vilão. Agora....»
Juntou rapidamente os lábios com os dedos, assobiou fortemente, e num ápice, chegou qual cavalo veloz e no espesso nevoeiro, surgiu uma enorme limusina Rolls Royce preta mesmo à sua frente, pronta para seguir viagem para qualquer lugar.
A porta direita de trás abriu-se subitamente e, com uma habilidade para ser discreto, o conde entrou na viatura com muita rapidez e ordenou de rompante:
- Bobino! Leva-me imediatamente para o meu esconderijo.
- Com certeza, Sr. DS. – Acenou o motorista.
Lá desapareceu na bruma da noite aquele “herói”, sem que as minhas loucas visões conseguissem descobrir quem realmente o tal James Dark Sword era. Afinal, todos os heróis têm de ter um alter-ego........
Ao sentar-se, o homem de olhos, meio verdes, meio azuis, reparou numa exótica e bela mulher com uns óculos-de-sol vermelho vivos, vestida apenas com uma mini-saia de cabedal preta e umas invulgares meias de seda roxas que realçavam a cor morena da sua pele lisa e sedosa. Com uns sapatos de salto-alto vermelhos, ficava ainda mais alta do que realmente era e por cima daquela blusa rosa-choque curtíssima, que dava até ao umbigo, e desabotoada até se ver uma grande parte do peito voluptuoso. Sob o cabelo preto e longo e solto como uma cascata de petróleo, escondiam-se dois olhos cor-de-carvão provocadores com sombra escarlate e uns lábios que lhe davam um ar tanto mimado e desesperado.
Sob os ombros relativamente largos e pálidos, pendia num dos lados uma carteirinha de pele de crocodilo amarelo escuro com a qual as unhas vermelhas longas como garras de uma hárpia brincavam impacientemente.
O homem moreno e de forte constituição, igualmente de aspecto latino, explicou-se um bocadinho atrapalhado:
- Ainda tentei avisá-la que o senhor não estava disponível, mas a senhora continuou a insistir que vinha.
Dark Sword anuiu meditativamente com a cabeça, enquanto observava com desdenho a linda prenda que o ajudante lhe fora arranjar.
- Claro... – Disse ele com desprezo. – Se eu precisava de uma cobra cuspideira, pedia-te que fosses ao ZOO da Estação Manuelina.
A Serpente de Fogo pôs deliberadamente a sua mão delicada de unhas de bruxa nas calças de jeans pretas do cyborg com um sorriso sedutor.
- Oh, James...! – Suspirou ela sensualmente. – Não sejas tão modesto! Tu até que és bem giro, sabias?
- Poupe-me, Vossa Senhoria. – Dark Sword tremeu ligeiramente. – O que é que a senhora e o palerma do seu noivo andam a tramar?
Ela, fingiu-se indignada, com a mão magra na boca deliciosa de mulher de espanto.
- James! – Soluçou ela. – Não me digas que depois de tanto tempo ainda continuas o mesmo desconfiado e bonzinho de sempre...Aqueles homenzinhos estavam apenas a levar os meus brincos de diamantes.
O conde continuava a segurar discretamente na sua pistola, com receio que a bruxa tentasse alguma coisa, e olhava de relance para a femme fatale de vez em quando, um pouco incomodado.
Sim, o arqui-inimigo do James Dark Sword é uma mulher, e, pelos vistos, uma mulher muito perigosa e rica.
Nada se parece com uma prostituta do que uma bruxa rica. Ela fixou-o nos olhos e mirou depois o resto do corpo bem feito do Sr. Conde. Era um daqueles olhares que só podiam vir de mulheres demónio ou de estrelas de cinema fenomenalmente ricas e bonitas e que se destinava a fazer o pobre chefe da Resistência a trepar para cima dela como uma trepadeira numa latada.
Ainda por cima, ela trata o Dark Sword nas raras vezes que se encontram pelo primeiro nome e por “tu”.
Ele tem mais medo dela do que do qualquer outro homem.
- Diamantes esses que a senhora comprou do dinheiro roubado ao povo atlante! Eu vi o conteúdo da mala, e não era nenhuma bijutaria da loja dos trezentos! – Ripostou ele repugnado. – Também sei que a senhora tem uns certos negócios para comprar metade da Floresta de Cristal.
- Ai, que espertinho, bebé! – Riu-se ela, descaradamente. – Ai...! Sim, realmente as jóias são o meu único verdadeiro amor, para além do meu pozinho de cheirar...Eh, eh, eh...
Ao realçar vaidosamente os lábios cor-de-vinho com o seu batom, com um sorriso malicioso a bailar-lhe no rosto, acrescentou num tom trocista:
- Agora, meu amorzinho, o problema aqui, é que eu tenho uma data de meninos prontos para te dar cabo de ti. E...Se houver mais um ataque selvático como aqueles aos meus meninos da SPV, podes crer que basta estalar-me os dedos para te ver a esticar o pernil! Oh, oh...Coitadinho do meu querido James....Era uma vez um Condezinho!
Ao dizer estas últimas palavras, ela viu a sua garganta ameaçada por uma afiada adaga de dois gumes, empunhada pelo astuto e rápido James Dark Sword.
- Quem é que está numa posição grave agora, minha senhora? – Perguntou ele sarcasticamente. – Não vai livrar-se tão facilmente de mim! Eu vou descobrir o que é a senhora anda a tentar fazer com o dinheiro dessas jóias, e não vou deixar-me ludibriar assim tão fácil como os outros foram!
De repente, os intentos sensuais da Serpente de Fogo tornaram-se em certeza quando ela, com as mãos ainda livres, pegou suavemente na cabeça do seu raptor, e, com a boca perto dele, sorriu.
- Ai não? – Exclamou. – Sabes duma coisa, James? Eu sempre quis beijar esses lábios de vencedor!
Dito isto, pregou arrogantemente um grande linguado na boca do seu adversário, e, mal tocou os lábios firmes de metal do cyborg, despertou-lhe um desejo, há muito oculto na mente de software e miolos: o desejo carnal.
Os motores e sensores interiores do andróide começaram a trabalhar, e, em segundos, estavam entrelaçados um ao outro como duas aves do paraíso!

Domingo, 19 de Abril de 2009

O homem da Espada Negra (parte I)


A Lua resplandecia vitoriosa pelo menos na Estação Manuelina, e os candeeiros brilhavam a bonita calçada de pedra por onde dois homens de idades compreendidas entre os vinte e os vinte e cinco anos faziam a sua ronda nocturna, com ares de superioridade, o mais velho andava com uma pistola branca empunhada na luva de cetim da mesma cor, enquanto que o mais novo tinha um chicote negro embainhado no cinto de prata que mostrava duas ondas douradas na fivela, demonstrando – segundo as minhas perspectivas – que era um sargento. As suas passadas largas eram como trovões atordoares aos ouvidos de qualquer um que os ouvisse, e, se por acaso algum demónio, fada ou cyborg decidisse por brincadeira barrar-lhes o caminho, receberia como calorosa saudação duas chicotadas nas costas.
Estavam à procura de uma nova vítima, e os seus olhares confiantes esperavam encontrar desesperadamente alguém para ser deportado para a Fronteira, ou talvez uma boa batalha contra algum cyborg obstinado. Sim, aqueles arrogantes julgavam-se o terror da noite, e estavam definitivamente convencidos que iriam receber uma medalha mesmo antes do fim do mês. Afinal, eles tinham a missão de encontrar um certo “impuro” em particular, e de o levar imediatamente à presença do próprio Rei dos Bruxos em pessoa, pelo menos fora isso que tinham ouvido da boca do seu grande manda-chuva, o indiscreto e vaidoso capitão-mor italiano Edward Goldtheeth, o “grande” líder da SPV.
Mal eles sabiam que iriam ter a batalha das suas vidas, não contra um cyborg, mas com o cyborg dos Cyborgs!
Um vulto sobrenatural escondia-se perante as sombras das ruas estreitas, deslizando suavemente entre as esquinas e ruas que aqueles incompetentes percorriam, e, de súbito, uma pedra rebolou em frente dos dois bruxos incautos.
O do chicote estremeceu um pouco, sacando cuidadosamente da sua arma.
- Terá sido um fantasma, tenente? – Disse ele assustado.
O suposto tenente virou-se para o sargento e olhou-o com diversão, sorrindo.
- Claro que não, os fantasmas não são assim tão estúpidos. – Respondeu a rir-se.
Mas não achou tanta piada quando uma voz eloquente com um leve sotaque inglês soltou uma gargalhada diabólica:
- Sabes, caro rapaz, creio que o teu camarada está certo.
Os agentes sacaram rapidamente das suas armas, e puseram-se em posição de ataque, como que esperando um terrível furacão, apontando furiosamente o seu ameaçador arsenal contra os candeeiros amarelos.
Mas não havia ninguém, teria sido apenas uma mera partida pregada pelos demónios....?
O sargento deitou o chicote ao chão, um pouco frustrado, depois de ter olhado durante dois minutos para um simples nada, enquanto que o tenente estava com a mão bem firme na pistola, quase para premir o gatilho nervosamente, qual animal selvagem com um instinto que lhe dizia que talvez poderiam estar em apuros.
- Só espero que não seja mais um dos teus truques de magia negra que querias mostrar a Sua Excelência! – Rugiu o tenente na sua voz grossa com sotaque árabe. – Caso contrário, terás de te haver comigo, Sargento Govas.
Govas olhou o outro bruxo com os seus olhos castanhos a brilharem num vazio estúpido e ingénuo.
- Juro que não tenho nada a ver com esta....Este feitiço dos infernos! – Respondeu num tom confuso.
Mal o sargento acabou de falar, a terceira voz interrompeu a conversa dum modo trocista: Para tua
- Devias tratar melhor o Sargento Govas, Almenir. É esse o teu verdadeiro nome, ou se calhar enganei-me quando li a tua Ficha Azul?
O queixo fraco do bruxo português caiu de tal forma que tentou logo apanhar o chicote, virando-se para o seu companheiro árabe, muito atónito, com as mãos a suar, agarrando-se a Almenir como se fosse uma menina.
- Ele tem as nossas Fichas Azuis! – Exclamou cobardemente. – O que fazemos agora?
Por outro lado, o tenente soltou uma risada sarcástica, soltando-se valentemente do seu amigo, e olhando para todos os lados de nariz empinado, fingindo ser uma mulher muito convencida, brincando comicamente com a pistola como se ela fosse um estojo de maquilhagem. Ele nunca seria enganado por uma mera ilusão que a sua cansada mente lhe provocava. Talvez fosse apenas o vento, e, afinal, ele tinha sido condecorado com a honrosa Túlipa Rubi de segunda classe por coragem sobre fogo. Não seria um diabrete qualquer que o iria amedrontar.
Riu-se que nem um perdido, e depois, brincou animadamente com o seu novo e pequeno troféu na sua gabardina.
- Claro, e eu sou a Serpente de Fogo! – Disse, rindo numa voz fininha. – Por Ali, António Govas! É impossível ele (seja quem for) ter os nossos documentos, relatórios e fracassos relatados nos ficheiros mais secretos e bem guardados da SPV!
Passados uns dois minutos depois de ele ter proferido aquelas mesmas palavras, uma faca venenosa vinda do nada, qual grande e rápida flecha, passou de raspão pela gravata preta do tenente, vindo acertar no chicote de Govas, provocando um enorme corte na mão do bruxo menor, que, chocado pela faca ter cortado o cabedal, olhava com desgosto para o anelar separado dos outros dedos, a esguichar sangue pelo granito todo da calçada.
Quem quer que fosse, aquela pessoa não estava com meias medidas para acabar com a tirania da SPV sobre os mais fracos!
A voz soltou uma suave risada sádica que arrepiou os dois agentes.
- Tem sorte por não ter sido a sua cabeça, meu caro Sr. Yillem. – Avisou perversamente a voz invisível. – Mais uns centímetros e a sua carreira como supervisor das deportações dos impuros neste bairro acabava literalmente.
O português debruçou-se às botas do seu superior, tremendo como varas verdes e tentando em vão juntar o seu anelar com o resto da mão direita, com os olhos vermelhos com o sangue humano.
- Acho que ele não está a brincar, Tenente Yillem. – Choramingou Govas.
O bruxo árabe, não satisfeito com o que tinha visto, atirou contra o céu estrelado de Outono, e, cepticamente, olhou para o seu subordinado durante cinco minutos.
Passados mais dois minutos, contemplou silenciosamente o céu com um brilho positivo nos seus olhos escuros, viu o seu relógio de pulso e soltou um audível “Ah!”.
- Vês, António? – Exclamou confiante. – Não há qualquer cyborg ou criatura imunda que me consiga assustar. Quem é que se está a rir agora?
Subitamente, ouviu-se uma gargalhada suave e elegante de um homem que gelou os dois corações de ambos, e, numa rajada de Inverno, surgiu diante dos pobres coitados, trazendo escondido no fumo um homem vestido como um bruxo: enormes garras de sangue; chapéu bicudo púrpura, cobrindo por total os olhos esmeralda por debaixo da máscara de porcelana; alto e esbelto como um acrobata experiente; e capa preta de pele de urso com interior forrado de veludo vermelho, com um cinto negro que prendia um florete embainhado em cristais afiadíssimos e a brincar com três adagas nas mãos habilidosas, com um sorriso escarninho e sem expressão na máscara de porcelana.
Os dois abraçaram-se um ao outro, aterrorizado e paralisados como estátuas para o assassino que lhes tinha caído na rifa.
Passados alguns minutos, gritaram, muito assustados, com todos os pulmões:
- O CONDE JAMES DARK SWORD, O TERROR QUE VIGIA CYBORG TOWN!
E desataram a correrem como se tivessem sete pés, tão pálidos quanto duas larvas de bichos-da-seda, utilizando a energia do vento para tentarem voar daquele sítio o mais rápido que pudessem com os seus tridentes. Mas, infelizmente para aqueles dois, a pontaria de Dark Sword com as suas adagas era suficientemente boa.
Ele sorriu, segurando com destreza a capa de forma que tapasse o rosto e só se visse os seus dois olhos a brilhar de tão convencido que era.
- Parece que a minha reputação persegue-me. – Comentou a voz. – Tal e qual como as adagas da justiça que serão cravadas nos peitos da corrupção e da tirania!
Não podia falhar, os seus olhos esmeralda penetrantes concentraram-se mecanicamente no seu alvo com o barulhinho dos seus bits de disco rígido a funcionarem em conjunto com o seu cérebro, um terço de minuto para calcular a direcção, outro terço para a distância, e outro para ser lançado.
O complexo processamento fez o seu frio trabalho, ordenando à mão de metal esquerda para atirar a adaga para acertar exactamente em cheio no calcanhar direito do tenente quebrando um osso vital do pé! Isto deixou-o letalmente ferido e sentindo um ardor como nunca tinha sentido antes, tropeçou numa pedra demasiado rígida para as suas botas aguentarem e caiu estatelado no chão qual um velho cavalo com uma perna partida. Enquanto isso, o seu companheiro já estava a voar no seu tridente, muitos km’s de distância daquele lugar horrível.
O misterioso justiceiro ao chegar ao pé do miserável, observando que o último se esperneava e contorcia de agonia do seu pé direito, soltou uma risada sádica, beijando docemente a sua adaga.
- O pé direito entrou em acção, não foi, meu caro Almenir? – Exclamou num tom sarcástico.
Mas logo mudou para um tom ameaçador e frio quando, ao estalar os dedos, a garganta do coitado começou a fechar-se, como se estivessem a esganá-lo fortemente, pondo-o entre a vida e a morte! O implacável conde levitou-o com a força da sua mente, e sorriu de forma trocista, olhando com aqueles olhos arrepiantes verdes.
- Promete que nunca mais, mas nunca mais, voltas a procurar o “eleito leitor”! – Disse ele em voz alta e de homem. – A partir desta noite, nada de SPV; vais esquecer-te que trabalhas para eles...!
Estranhamente, o oficial da polícia secreta acenou com a cabeça lentamente, muito fraco e indefeso, como um cachorro obediente. Os seus olhos castanhos tomaram uma coloração meio esverdeada, e a sua boca aberta qual um peixe morto, deitava um pouco de baba no chão, a flutuar, parecia que estava no meio dum...transe. Que espécie de nova magia seria aquela...?
- Sim...Nunca mais vou trabalhar para eles... – Respondeu, meio sonolento.
O meio bruxo, meio cyborg repetiu o gesto, desta vez com o dedo direito, e, ao fazê-lo, o agente caiu redondo no chão, sem uma única cicatriz, como se não tivesse acontecido absolutamente nada naquela estranha noite. Já tinha ouvido falar do hipnotismo, pois estava a estudá-lo nessa altura para o liceu no PR, mas nunca pensei que houvessem feiticeiros que conseguissem executar um feitiço de hipnose e manipulação completamente sem a ajuda de um objecto ou arma que contenha energia mágica.
O perverso conde pôs, com a ajuda das suas mãos e da sua magia negra, o SPV hipnotizado a andar, rindo-se com a mão direita a indicar para a Estação Manuelina, sorrindo de uma forma trocista como conseguira livrar-se facilmente daqueles dois empecilhos.
- Lindo menino, agora....Vai comprar imediatamente um bilhete para o próximo avião que sair da Atlântida para o Iraque. – Continuou o conde na sua voz fria. – Quando ouvires a palavra “guerra”, já estarás muito longe da tua querida víbora, e será demasiado tarde para escapares à morte certa no teu país natal!
Almenir obedeceu cegamente às ordens que Dark Sword lhe tinha dado, e, num segundo, já tinha pegado no seu tridente, pregado a fundo no primeiro bico do seu utensílio gigante de cozinha qual uma vassoura, e indo a voar até à Estação Manuelina.

Quarta-feira, 4 de Março de 2009

encontro com o caminho de dois sentidos...

Ao sair do arranha-céus, reparei que uma figura alta estava pontualmente à minha espera. Oh, como me tinha divertido! Já deviam ser uma da noite. Decerto que o preocupado e coitado do Nälden perguntava-se a si mesmo como raio eu não tinha ido embora com o Primo Coutinho e porque é que ele estava ali, àquelas horas.
Realmente, o Dia das Bruxas tinha sido celebrado com uma grande festa de arromba.
Ainda se viam umas pequenas luzes nos poucos bares que estavam abertos ao redor da enorme e comprida avenida principal.
As luzes das lâmpadas, ténues e enfraquecidas pelo nevoeiro, pousadas de dez em dez metros seguidamente no jardim que separava o caminho do metro do dos carros, plantado com bonitas árvores de cerejeira, iluminavam a bifurcação e o grande palácio do Cavalheiro e da estação de metro, mesmo atrás do Anel da Serpente, que era o edifício por onde eu tinha saído.
De resto, só restava como companhia a escuridão das esquinas e travessas labirínticas e apertadas pelos grandes edifícios negros da velha cidade cosmopolita, com alguns datados do século dezoito, que, certamente, faziam contraste com o gigante moderno governado pela SPV. No canto direito do ringue, havia também o Quartel-General da nova rival da centenária Serpentis Politza Vigitz: os SOS, ou, os Serviços Obscuros de Segurança, como são chamados ironicamente, fundados em ’95 pelo General B. Cá para mim, apreciar a diferença entre a antiga Faculdade de Letras atlante e o Hotel Anel é como distinguir um shot moranguito de aguardente: têm os seus nomes próprios, mas o sabor e a sensação duma enorme ressaca e prováveis vómitos é semelhante.
No entanto, é fácil perceber que, ao conseguir este palácio barroco – a velha faculdade que servia anteriormente para ensinar humanidades, línguas e letras – o General B ficou muito bem servido. Talvez até bem mais servido que o seu novo patrão, o Goldtheeth, que ocupava agora os sete andares abaixo do chão do Anel da Serpente. Não havia dúvidas que o hotel centenário, agora intitulado pelo povinho como Casa SPV, era maior que o Palácio Eleonora (eles aqui têm uma estranha mania de adorar a realeza, não achas?); porém, à semelhança das pizas, o gosto é raramente uma questão de tamanho ou melhor massa.
Lá ao fundo, no caminho à esquerda depois do imponente Teatro Parisiense, havia uma antiga auto-estrada que se dirigia para Sudoeste, para a Cidade dos Deuses. Enquanto que, à direita, se estendem, por vezes, alguns bruxos a caírem de bêbados, a meio da noite.
Essa estrada, sinuosa e rodeada de árvores frondosas – tão altas quanto o próprio arranha-céus que se destacava na avenida pelos seus 600 metros de altura – tem um desvio que dá para o sinistro Vale da Morte, e também para o Castelo Negro.
Aqueles pinheiros bravos emanavam já de si uma certa aura infernal, quanto mais o próprio terreno acidentado a dois quilómetros de distância ao olho nu dum bruxo.
Apenas a Lua Cheia alumiava o céu escuro, coberto por ameaçadoras e tristes nuvens azuis-escuras.
Nälden, com um ar meio receoso, e num estalar de dedos, acendeu às pressas um cigarro para se acalmar. Com a cara pálida e quase fantasmagórica na penumbra, ele fumou o tabaco com uma exaltação paranóica nos gestos.
- Não precisas de ficar assim tão assustado. – Comentei com indiferença, alisando provocatoriamente os caracóis com os meus dedos.
Ele apenas encolheu modestamente os ombros, resignado, mas, por aqueles olhinhos castanhos-claros e, por aqueles maneirismos seus, não deixei de notar um pavor presente nos seus pensamentos.
A simples ideia de irmos ao Castelo Negro deixava-o aterrorizado, e, em toda a sua vida de bruxo, nunca pensara em fazer tal loucura.
Contudo, eu já lhe tinha dito um ror de vezes que, um dia, iria ao Castelo Negro para certificar-me se aquela história do meu Padrasto estar vivo é a dura e cruel realidade, ou se é pura ficção científica.
Uma vez que o seu emprego depende do meu estado de saúde, não teve outra escolha senão esperar por mim ao frio.
E devo-te dizer que, para além disso, Nälden é um grande amigo meu e já passou por outras coisas, e, com um grande amor à vida, é natural que – no seu dia de folga – seja o único bruxo a estar só, na mesma mesa, à mesma hora, no Cavalheiro, a apreciar lentamente o mesmo prato de sempre, com a mesma bebida: arroz de marisco com vinho do Porto misturado com néctar de limão destilado. Tal como já te contei, o Cavalheiro é uma mistura dum restaurante, com um clube nocturno francês e um salão de dança de aproximadamente cinco andares, localizado no número 88 da Avenida Principal. Fundado em 1928 pelo bruxo parisiense Alfredo Chévrier (um indivíduo deveras bizarro, diga-se de passagem, foi preso pela Gestapo por suspeitas de ser homossexual, apesar de ser casado), inicialmente como um salão de baile com jantares e almoços, o Cavalheiro teve um sucesso estrondoso por volta dos inícios dos Anos 30.
Por volta dos anos obscuros da ocupação nazi na Atlântida, o conhecido local nocturno de entretenimento faliu, devido à séria acusação de Chévrier. Actualmente, desde ‘79, este edifício é gerido por uma entidade anónima, que financia e dá carradas e carradas de dinheiro aos empregados, bailarinas e chefes de cozinha que trabalham lá. Embora já não seja o rei dos salões ou clubes ou restaurantes de Cyborg Town, continua a ter um seu toque de requinte e elegância pelos seus brilhantes pratos típicos atlantes, e por ter as mais belas dançarinas atlantes, com o estereótipo exótico moreno, mediterrânico, do qual o General B tanto gosta. Como se isso importasse de qualquer maneira, francamente! O turismo atlante é frequentemente alimentado pelo machismo que continua a imperar na nossa ilha, e o Cavalheiro é um hotspot para todos aqueles pimbalhões mulherengos que vem lá dos USA, da Rússia e dos países do Norte da Europa, que gostam das nossas pobres adolescentes que vêm dos bairros de lata ou do inocente campo da Floresta de Cristal. Sinceramente, sempre gostava de saber quem é o desavergonhado que gere aquele antro de…De…Bom! De uma pouca-vergonha, é o que aquilo é. Com aquelas lambisgóias todas, e o maricas do Nälden lá, toda a santa terça-feira. Mas enfim, o que quer que ele queira provar, dentro do seu minúsculozinho aparelho genital, o certo é que não tem nada a ver connosco, não achas?
Antigamente, a SPV era uma polícia honesta, criada em 1933, pela Princesa Swerdinada com o intuito de proteger não só Sua Alteza, a Rainha, mas como também todos os cidadãos atlantes, dum terrível mal, cujo foi ironicamente a base para a organização dos departamentos da nossa querida instituição de justiça policial: a Irmandade Tigre Azul, a pior organização mafiosa da Atlântida nesses tempos. Pouco se sabe acerca desta associação de assassinos, no entanto, segundo os registos da SPV, os seus objectivos, eram claros: obter riqueza e poder. Durante os Anos 30, a SPV, controlada pelo feiticeiro branco – foi a única e a última vez que um feiticeiro branco assumiu a liderança da polícia secreta – Capitão-Mor Manuel António Cabral, o “Irmãozinho”, e o temível e misterioso Grão-Mestre da Irmandade Tigre Azul, lutaram pela supremacia!
Após cinco anos de lutas sangrentas entre bruxos, cyborgs e feiticeiros brancos, o grão-mestre desapareceu enigmaticamente do tabuleiro de xadrez, e, foi aí que a diplomática princesa declarou paz entre todas as classes. Infelizmente, essa paz não durou durante o tempo que ela gostaria: a Segunda Grande Guerra rebentou no mundo, um mês depois do anúncio do fim da liderança de Irmãozinho para o início do reino do conhecido bruxo atlante, o Marquês Kantiano Di Zifirinathüm. Em Dezembro de 1940, a minha querida mamã deu permissão ao meu honrado padrasto e aos Nazis para que eles marchassem sobre a Avenida Principal. Uma vez duquesa, Katharina Von Tifon afiou as unhas para discutir com a Serpente de Fogo, mas foi em vão! Os Von Tifon estavam sob o domínio da paixão que a minha mãe detinha pelo meu Padrasto, que, à medida que os dias passavam, crescia cada vez mais! Por fim, em 1942, com a morte do “O Poderoso” e o assassinato de Manuel Irmãozinho, quatro corações se despedaçaram, com tanta força e sofrimento como as bombas americanas a caírem em Cyborg Town na quinta-feira de chamas, em 16 de Julho de 1942. Swerdinada e a Mamã partilharam, por esta vez, as lágrimas que choraram foram as mesmas, uma vez que ambas gostavam, não do meu Padrasto – a minha mãe não verteu nem uma gota por aquele paspalho. – Mas sim do nosso Capitão-Mor Irmãozinho. Por mais estranho que pareça, em 1950, a minha querida Mamã assumiu o controlo da SPV, uma vez que já tinha experiência nesse campo.